Tres espacios OEI

Está en:
OEI - Tres espacios lingüísticos - I Coloquio

I Coloquio Tres Espacios Lingüísticos ante los Desafíos de la Mundialización.
Paris, Francia. Marzo 2001

Discurso de Su Excelencia Señor Joaquim Alberto Chissano
Presidente de la República de Mozambique

Sua Excelência Jacques CHIRAC,
Presidente da República Francesa;

Sua Excelência Gustavo NOBOA BEJARANO,
Presidente da República do Ecuador;

Exmo Senhor Boutros BOUTROS-GHALI,
Secretário-Geral da Organização Internacional da Francofonia;

Excelências;
Minhas Senhoras;
Meus Senhores,

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Dr. Boutros Boutros-Ghali, Secretário-Geral da Organização Internacional da Francofonia, pelo convite que me endereçou para participar neste colóquio que tem como lema “Três Espaços Linguísticos, perante aos Desafios da Mundialização”.

Agradeço igualmente ao Povo, Governo da República Francesa e a Sua Excelência o Presidente Jacques Chirac pelo acolhimento caloroso e cordial que nos tem dispensado desde a nossa chegada a esta maravilhosa cidade de Paris.

Saúdo ainda o Presidente Gustavo Noboa Bejarano que se encontra entre nós em representação da Organização dos Estados Ibéro-americanos.

Este evento proporciona-nos uma oportunidade para reflectirmos sobre os mecanismos capazes de promover uma maior cooperação entre as Organizações aquí representadas por forma a enfrentarmos em conjunto os desafios que a Mundialização nos coloca.

Minhas Senhoras;

Meus Senhores,

Este colóquio tem lugar num momento em que, uma vez mais, o nosso país está a enfrentar dificuldades resultantes de calamidades naturais. Ainda estávamo-nos a refazer da catástrofe das cheias do ano passado, e eis que novas inundações assolam o país.

Desde finais do mês de Janeiro que as províncias de Sofala, Tete, Zambézia e Manica, na região Centro do país, estão sendo fustigadas pelas cheias que já provocaram perto de uma centena de mortos e milhares de pessoas deslocadas, para além de avultados prejuízos em infra-estruturas e perda de cerca de 50 mil hectares de culturas.

Este novo desastre natural obriga o meu Governo, uma vez mais, a reorientar os seus programas e prioridades para responder a mais esta situação de emergência.

Quero aproveitar a ocasião para endereçar os nossos agradecimentos aos povos aquí representados pela solidariedade que nos têm sabido transmitir e à comunidade internacional, em geral, pelo apoio que nos tem prestado e que muito tem contribuido para minorar o sofrimento das populações afectadas.

Minhas Senhoras;

Meus Senhores,

Estou nesta magna assambleia na qualidade de Presidente em exercício da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma organização que tem procurado fortalecer os laços histórico-culturais que unem os povos falantes da Língua Portuguesa, em Afica, Asia, América e Europa. A CPLP foi criada em Julho de 1996 e congrega Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste como país observador.

Ela, como organização, assenta essencialmente em três pilares: concertação político-diplomática, cooperação multiforme e promoção e difusão da língua portuguesa.

Ao criarmos esta organização, tínhamos em vista:

Em Julho de 2000, Moçambique teve o privilégio de acolher a III Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP que adoptou a Declaração de Maputo. Esta Cimeira reflectiu e estableceu as melhores formas e mecanismos de expandir e diversificar o nosso relacionamento não só a nível da CPLP mas também com outros parceiros internacionais. É neste âmbito que nós apreciamos a presente iniciativa de interacção entre os nossos três espaços linguísticos.

A avaliação que fazemos do desempenho da CPLP nos seus cinco anos de existência é positiva. Merecem registo as iniciativas e realizações levadas a cabo nas áreas da cultura, saúde, educação, formação, desporto, justiça, defesa e banca.

Delineamos estratégias para assegurar o acesso e uso de novas tecnologias para o atendimento às populações com HIV/SIDA e outras doenças oportunistas. Ao nível da educação e formação, para além do reforço da cooperação entre instituições de ensino a diversos níveis, está em curso a implementação de vários projectos, entre os quais o establecimento de dois Centros de Excelência em Desenvolvimento Empresarial, em Angola, e Administração Pública em Moçambique, um Centro Internacional da Juventude da CPLP, em São Tomé e Príncipe, e o Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), na República de Cabo Verde.

A CPLP deu um contributo aos esforços de paz e segurança internacionais, participando activamente na busca de paz na Guiné-Bissau, na soluçao da questão de Timor-Leste, e está empenhada nos esforços de paz em Angola. Nestas realizações, para além de outros factores sócio-políticos, acreditamos que a língua é também um meio de união e solidariedade.

Devemos continuar a desenvolver esforços para que os espaços linguísticos se transformem também en espaços económicos por excelência, porque os novos desafios que muitas vezes se estabelecem no domínio da economia trazem igualmente uma forte componente identitária.

Em alguns países da CPLP, como é o caso de Moçambique, o Português coabita com as línguas locais, sendo nestas que se realiza grande parte dos actos sociais e culturais. Estas línguas reivindicam cada vez mais um papel activo na definição de identidades e dos saberes.

O Português, contudo, como língua comum aos nossos oito países, assume-se como uma língua de referência cultural e histórica ainda que não cubra todas as referências de identidade cultural. É através dela que se faz amiudadas vezes a pesquisa das realidades que lhes são alheias e a comparação e complementariedade entre elas.

Os nossos três espaços estão profundamente marcados por influências comuns, como por exemplo, a multiplicidade de contacts e intercâmbio prolongados com os povos árabes. Esta convivência multisecular é testimunhada pelas influências linguísticas, religiosas, alimentares, arquitectónicas e em vários domínios sócio-culturais e económicos.

Minhas Senhoras;

Meus Senhores,

Iniciámos o século XXI com imensos desafios colocados pela mundialização, um fenómeno caracterizado por uma maior interacção entre os povos, uma cada vez menor relevância das fronteiras nacionais, identidades instáveis e compressão do tempo e espaço.

Passou o tempo em que se acreditava na dicotomia “nós” versus “eles”, ou “civilizados” versus os “não civilizados”. O tempo em que alguns de nós, auto-proclamando-se de civilizados, chamavam a si a missão de espalhar a civilização pelo mundo. A história demostrou-nos quão falsa era essa dicotomia.

Hoje, acreditamos que a humanidade é ela própria uma civilização e todos nós somos parte dessa civilização. Hoje, compreendemos que o que chamávamos de diferentes civilizações não era mais do que partes integrantes da grande civilização chamada humanidade.

Gostaria aquí de subscrever a ideia segundo a qual a humanidade adopta em cada era uma imagem de si mesma – um certo horizonte, seja ele imperfeito – que de certa forma unifica a experiência nela vivida. Essa imagem carrega dentro de si optimismo e pessimismo, ordem e desordem, certezas e incertezas.

Isto é verdade para a era em que vivemos. Por isso não surpreende que o debate sobre como preservar a cultura, sem prejuízio do seu valor para o desenvolvimento das nações, continue a ocupar o tempo dos estudiosos, políticos, religiosos, artistas e demais interessados.

É nosso desejo que a dimensão das diferentes modernidades dos nossos povos e das nossas Histórias se mantenha perene no mundo global, em beneficio das nossas singularidades ou identidades, porque estes saberes são importantes para o conhecimento intracomunitário e intercomunidades e devem ser defendidos dos estigmas e das tentações globalizantes.

Por isso, a cultura, da qual a língua é um veículo privilegiado de transmissão, com a sua diversidade e riqueza, debe ser um instrumento de promoção da paz e tolerância num mundo onde as pessoas partilhem de forma justa as responsabilidades e os benefícios. É neste esírito que tomamos parte nas várias realizações no âmbito da proclamação pelas Nações Unidas do Ano 2000 como ano da Cultura da paz e subscrevemos a decisão de declarar o Ano 2001 como o ano do Diálogo entre Civilizações.

Minhas Senhoras;

Meus Senhores,

Conforme o que é sugerido pelo tema deste colóquio, “Três Espaços Linguísticos Face aos Desafios da Mundialização”, eu me pergunto:

Como formar uma identidade comum num espaço multicultural?

Como se manifesta a identidade individual e de grupo num contexto multicultural?

Será o multiculturalismo um factor de força ou de debilidade face à mundialização?

A identidade é formada em volta de valores. Estes valores tornam-se cada vez mais fortes quanto mais forem vividos e apregoados no todo, tornando-se assim cada vez mais importantes para o indivíduo e o colectivo dentro do espaço cultural do qual se sentem parte.

Assim, num contexto multicultural, a identidade individual completa o todo geral e manifesta-se em estruturação de grupos que juntos buscam a causa local comum. Isso pressupõe o reconhecimento de que o local individual e o local colectivo fazem parte de um todo.

O multiculturalismo é também uma consequência da mundialização. Uma era de mundialização debe olhar de forma biunívoca para os fenómenos sócio-culturais e históricos e pensar na construção de um saber solidário. Esse olhar permite um desenvolvimento de acções interactivas.

Sem esta perspectiva, a mundialização pode ser facilmente confundida como uma nova fase de dominação, de divisão desigual das tarefas das nações e dos povos, com os cidadãos mundiais de 1ª, 2ª, 3ª classes, com beneficiários e párias.

Há que encontrar formas de maximizar as vantagens que dela decorrem inspirando-nos em ensinamentos da história da expansão ibérica no continente americano, por exemplo, onde o fluxo dos seus próprios valores se caldearam com as culturas dos povos indígenas e dos escravos negros idos de Africa formando a cultura latino-americana, que hoje reflui para a Africa e Europa influenciando grandemende a mundi vivência e a mundi vidência dos povos dos nossos espaços linguísticos.

No mundo actual o saber tornou-se no maior capital. Observamos a rapidez com que a economia global, caracterizada por um maior fluxo financeiro, liberalização do comércio e avanços tecnológicos, tem estado a mover-se.

Numa economia baseada no conhecimento científico, as tecnologias de informação são um factor importante para o seu desenvolvimento e são as responsáveis pela crescente interdependência que se regista no mundo de hoje. Entretanto, lamentavelmente, a maioria dos países en desenvolvimento, particularmente os africanos, têm tirado poucos beneficios desta revolução digital.

O desafio que se nos coloca é encontrar formas innovadoras para realizar o potencial que as tecnologias de informação e comunicação representam no combate à pobreza assim como a promoção e partilha do saber entre os nossos povos.

Portanto, o investimento na educação, incluindo a aprendizagem informática, são fundamentais para o desenvolvimento humano, devendo as estratégias de tecnologias de informação e comunicação nacional, regional e internacional incorporar também a capacidade de produção dos conteúdos.

Excelências,

O fim da Guerra Fria pôs termo a um período singularmente sombrio da história da humanidade, dominado pelo espectro de uma ameaça global e pela projecção à escala planetària das rivalidades ideológicas entre os dois sistemas políticos e económicos até então presentes.

Mas, se no tempo da Guerra Fria, muitos acreditavam en linhas de divisão ou cortinas de ferro para isolar os indesejáveis, quer por razões ideológicas ou outras, hoje, o isolacionismo não só se tornou moralmente indesejável, mas também impossível. A história ensinou-nos que a diversidade não corresponde a linhas ou cortinas dividindo os homens.

No nosso entender, estes três espaços linguísticos podem, neste processo de mundialização, evitar a unicidade cultural que se pressupõe de uma mundialização de fortes tendências económicas e tecnológicas, mas sim reafirmar as especificidades das suas múltiplas identidades culturais como vitais à criação de um mundo sem periferias indesejáveis.

Espero que aquí juntos encontremos formas e mecanismos para um maior intercâmbio entre os nossos povos, através de facilitação e apoio a actividades culturais, artísticas, literárias, científicas, comerciais e desportivas conjuntas.

O ensino das nossas línguas é fundamental. Nesse caso refiro-me, nomeadamente, ao Português que se enriquece cada dia com os ricos acrescentos que a oralidade, a literatura, a cultura e actividade económica e social de cada país traz e que cada região dentro de cada país lusófono cria. Ao Francês que desde há muito tempo nos trouxe os francesismos a que estávamos habituados na literatura lusófona. Ao Espanhol que é, por vezes, mais difícil para nós aprendermos por ser demasiado semelhante ao Portugués. Assim, devemos encontrar mecanismos aos níveis oficial, privado e da sociedade civil de incrementar ainda mais o que até aquí temos vindo a fazer.

Mas para além do que acima foi dito, para que a revolução digital possa beneficiar a todos, teremos de adoptar uma linguagem que massifique as tecnologias de informação e comunicação através do uso de línguas locais. Não nos referimos aquí a dialectos, mas sim à línguas faladas por milhões de pessoas como acontece nos países africanos. Tais são os casos do Emakua, do Xinyanja, do Xitsonga, do Kimbundo, do Umbundo, do Kicongo, do Kiswahili, do Angolar, do Balanta e outras.

Minhas Senhoras,

Meus Senhores,

Antes de terminar, gostaria de, em nome da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reiterar a nossa convicção e desejo de que este colóquio marque o início de uma cooperação muito mais estreita entre os nossos espaços linguísticos.

Temos a certeza de que as reflexões nas mesas redondas que se seguirão a esta plenária, envolvendo intelectuais, homens de negócios, personalidades de reconhecido mérito, funcionários e especialistas produzirão ideias capazes de nos ajudar a enfrentar os desafios da mundialização em benefício dos nossos povos e comunidades.

Muito obrigado.

Tres espacios lingüísticos
Buscador | Mapa del sitio | Contactar
| Página inicial OEI |