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lingüísticos - I Coloquio
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Autoridades presentes, Senhoras e Senhores,
Eu inicio saudando de forma muito afetuosa e congratulando o Dourtor Boutros Boutros-Ghali, que conseguiu essa extraordinária alquimia: nos fazer encontrar para tratarmos do que é comum e da diversidade nos nossos três mundos.
Primeiro gostaria de dizer que é também muito especial poder utilizar essa nossa língua portuguesa num forum internacional, e essa é uma conquista que consideramos fundamental sobretudo quando o diálogo se faz pensando a diversidade desse nosso extraordinário caminhar pela história e construçao da historia da humanidade. Falar do mundo lusófono significa falar de uma história extraordinariamente rica que se materializa de certa forma na organização da Comunidade dos países de língua portuguesa, organização formal que data de 1996, mas que retrata, como todos sabemos, uma longa trajetória africana, européia, americana, asiática e que é também definidora de aspectos fundamentais da história da humanidade. Se Magalhães, ao provar que a terra é redonda, permitiu que nos encontrássemos todos para construir e criar, foi também a partir das grandes navegações que parte a nossa história perversa e também a nossa história diversa, mas sobretudo foi a partir daí que recriamos essa parcela da história da humanidade.
Esse nosso encontro, que em momentos se materializou no maior tanslado humado já vivenciado, que se materializou na história da escravidão, também gestou novas culturas, como as culturas afro-indígenas, as culturas européias marcadas pela presença árabe e judia, as culturas africanas com grande influência européia e, hoje, com grande influência latino-americana, culturas européias com influência africana e ainda, e principalmente, culturas políticas que se reencontraram e que, desde esse grande momento das navegações, passando pela República de Palmares -a primeira grande República das Américas- , por momentos históricos fundamentais, como a independência dos países africanos que geraram novos conceitos de democracia, de direitos humanos, de direitos sociais e econômicos, até a extraordinária revolução dos Cravos. Agora, essa reorganização, esse reencontro dessa grande comunidade vai, de forma articulada, produzir um novo momento de desenvolvimento, compartilhado com aqueles que muitas vezes chamamos de outros, os outros povos, os autros mundos mas, que no fundo somos nós, a humanidade.
A Comunidade dos países de língua portuguesa produziu nos últimos anos um câmbio político extraordinário que nos levou, ao final do século passado, a promover uma série de restruturações e de ações políticas comuns, num momento em que Portugal dinamizava a sua presença na União européia e em que os jovens países africanos independentes se consolidavam através dos regrupamentos regionais e tentavam transformar suas jovens e recentes independências em democracias, embora dificuldades internas ainda sejam vivenciadas; hoje, entretanto, o que se vive são esforços extraordinários para que essas dificuldades sejam transformadas em oportunidades de consolidação da democracia. Essa organização dos países de língua portuguesa aconteceu quando o Brasil consolidava os seus processos democráticos criando meios para superar as desigualdades históricas, sobretudo a exclusão por origem étnica, as desiguladades regionais e a ainda débil luta pela inclusão das mulheres com poder real no gerenciamento da riqueza coletiva produzida.
Portanto essa é uma comunidade que continua, sempre dinâmica, construindo novas culturas do desenvolvimento. e eu digo aqui novas culturas porque, como bem disse o extraordinário crítico e sobretudo grande idealizador de parte desse trabalho, o Presidente Joaquim Chissano, nós trabalhamos hoje com a nossa diversidade, valorizando-a e compreendendo-a, pois como eu já disse aqui, nós somos o outro e que o outro é um pedaço de nós. Estamos tratando sobretudo de lidar com as extraordinárias dificuldades que são as barreiras comerciais no cotidiano, e tratando de derrubá-las com projetos de interesses comuns. Estamos conduzindo um conseqüente diálogo para ampliar as possibilidades de circulação de pessoas e de bens, compreendendo que não há comunidade sem circulação, não há comunidade sem intercâmbio. Estamos tratando de construir bases para consolidar um intercâmbio acadêmico, técnico e científico, que seja capaz de maximizar as oportunidades oferecidas pela mundialização. E, sobretudo, estamos criando condições para que os nossos povos possam ter acesso real à revolução digital : entendendo esta como uma necessidade fundamental para a sustentabilidade.
Nós certamente lidamos com problemas e barreiras, barreiras estas gestadas pela nossa propria história, uma das quais diz respeito, inclusive, à possibilidade de consolidação da paz no conjunto dos nossos Estados membros. Essa consolidação da paz depende certamente muito dos Estados soberanos, autônomos, para conduzir os seus processos internos, mas também depende do compromisso e da solidariedade da comunidade internacional.
Estamos tratando de lidar, como bem disse aqui o Presidente Joaquim Chissano, de forma solidária com as realidades dramáticas vividas por alguns dos nossos povos, sobretudo no que diz respeito aos acidentes geográficos, que, nós sabemos, são acidentes geográficos muitas vezes e em grande parte provocados pela própria forma com a qual os seres humanos têm lidado de maneira irresponsável com o meio ambiente. Entendemos novamente que é parte da nossa obrigação fazer com que a comunidade internacional se sensibilize com os apelos, por exemplo, de Moçambique nesse momento de gravidade vivido por aquele país em função das atuais cheias, que cumpra os acordos que foram estabelecidos ainda das cheias anteriores : até hoje a solidariedade expressa em palavras não se materalizou em solidariedade concreta e objetiva.
Estamos tratando de lidar com a realidade da Guiné-Bissau, um dos nossos Estados membros cuja instabilidade constante e permanente é conseqüência do processo cotidiano de empobrecimento daquele país que tanto conhecimento tem gerado para a humanidade. Estamos lidando com a realidade de superação dos conflitos, superação da guerra em Angola, que, todos sabemos, tem muito de implicações, sobretudo de interesses, de setores da comunidade internacional que, em outros momentos, criaram condições para que a realidade interna, vivida por aquele país, ainda fosse a que é hoje, e certamente somos não apenas solidários como estamos tratando de desenvolver projetos ativos que apoiem o governo daquele Estado membro, não apenas para que supere a realidade de guerra hoje vivida, mas para que seja capaz de transformar toda a máquina utilizada para a guerra em máquina a ser utilizada para o desenvolvimento.
Ainda, a Comunidade dos países de língua portuguesa está sériamente engajada na construção de processos de transparência, de boa gestão, de boa administração da coisa pública, de combate cotidiano à corrupção compreendendo, sobretudo, que não há corrupção sem corruptores.
Finalemente, quando falamos desse extraordinário encontro com os nossos parceiros dos outros mundos, desses outros mundos que são um pouco de nós, estamos tratando aqui justamente da construção dessa nova trajetória, dessa trajetória que, esperamos, seja digna da melhor expressão da inteligência humana. Falamos sobretudo de pluralidade, falamos da construção com respeito ao outro, construção com respeito à diversidade do outro, e sobretudo, construção para que as riquezas locais se materializem em projetos para o desenvolvimento local.
Sabemos que o desenvolvimento local hoje depende sobretudo de grande apoio ao desenvolvimento dos jovens, muitas vezes jovens órfãos ou que se tornaram órfãos pela violência vivenciada por parte dessa nossa comunidade ,em função do massacre que vem sido vivenciado a partir da dramática realidade do HIV-SIDA.
Esse é um tema ao qual estamos dedicando especial atenção que, esperamos, seja compartilhado e conte com o investimento da comunidade internacional, um projeto de 28 milhoes de dólares, portanto modesto, se nós persarmos que falamos não apenas dos nossos sete países mas também do nosso jovem e importante futuro Estado membro, que hoje já é observador, o Timor Leste, futuro Timor Morossai.
No que diz respeito, especificamento, à questão do combate ao HIV-SIDA, e às doenças sexualmente transmissíveis, as nossas referências são aquelas baseadas no consenso mundial de que os direitos humanos fundamentam-se no princípio de que, a todo ser humano, deve ser assegurada liberdade, bem estar e dignidade. Sobretudo, que o desenvolvimento, e o desenvolvimento humano, só pode ser de fato, só pode acontecer a partir de três atributos básicos : desenvolvimento das pessoas, aumento das suas oportunidades, das suas capacidades, potencialidades e direito de escolha. Portanto, tratar hoje, de forma enfática e comprometida como tratamos do combate ao HIV-SIDA significa assegurar que essa nossa comunidade dos países de língua portuguesa não venha a ser, muito em breve, uma comunidade de crianças órfãs ; além do mais, a questão da educação é fundamental e nós falamos sobretudo de uma educação plural, de uma educação que respeite a diversidade interna, de uma educação que incorpore os valores universais e os conhecimentos produzidos por toda a humanidade e sobretudo os conhecimentos produzidos a nivel local.
Por isso, Senhoras e Senhores, é um privilégio poder participar aqui, compartilhar das idéias e sobretudo da nossa possibilidade de construirmos juntos, como foi brilhantemente dito pelos oradores que me antecederam e sobretudo pelo Secretário Geral da União Latina, de fato, nesse início de século, um mundo seguro, um mundo pacífico, um mundo em que a diversidade seja a nossa maior riqueza e onde a alegria de viver não venha a ser simplesmente um motivo de desqualificação, mas um motivo de referência fundamental para a construção de novos marcos e de uma nova história dessa nossa trajetória do planeta terra.
Muito obrigada.
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